Cia Suspensa desenvolve linguagem artística para deslocar hábitos e padrões corporais através de processos de subversão

Por: Izadora Faria

A expressão “pé no chão” costuma se referir a pessoas que são muito realistas e evitam se permitir sonhar com um mundo de fantasias fora dos padrões tangíveis. No entanto, combinar imaginação com realidade não é algo irracional, é um ato de ousadia capaz de transformar conceitos concretos e criar novos modelos a partir da experimentação. “Tirar os pés do chão” é se permitir provar um pedacinho de um universo inexplorado e descobrir sensações a cada movimento, seja ele coordenado, seja não.
Esse foi o sentimento que marcou os dançarinos que participaram da oficina “Circo e Dança – Sem os Pés no Chão”, realizada na quinta-feira (18), em Uberlândia, como uma das programações do Festival de Dança do Triângulo (FDT). Motivados a desafiar os limites dos próprios corpos, os participantes entregaram-se a uma aula que fazia eles voarem pelo Centro de Convivência da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), mesclando movimentos da dança com técnicas circenses.
“Nosso trabalho investiga o corpo em suspensão, explorando diferentes apoios e perspectivas, juntamente com outros elementos que fazem parte desse acontecimento que é dançar fora do chão”, afirma Patrícia Manata, uma das fundadoras da Cia Suspensa. Há 23 anos, ela e mais três amigos ousaram sonhar com algo inédito e desenvolveram uma linguagem artística que busca deslocar hábitos e padrões corporais através de processos de subversão, reinvenção, tradução e adequação.
A dança, por si só, proporciona essas descobertas para os bailarinos que viajam de um lado a outro do palco como se estivessem desbravando um mundo, mas, quando isso é feito fora do chão, em suspensão, a sensação é que aquele mundo que conhecemos torna-se pequeno demais perto de tantas possibilidades.


A criação dos movimentos só é possível graças a um equipamento similar ao trapézio utilizado no circo, desenvolvido por Lourenço Martins Marques, educador físico e fundador da Companhia de Dança, cujo objetivo é conectar dois corpos de forma que um ofereça sustentação ao outro. “Esse aparelho trabalha com o princípio de contrapeso, então, para um bailarino se mover, necessariamente ele tem que se sintonizar ao movimento do outro. E aí entra a capacidade de se desapegar de movimentos coordenados e experimentar as possibilidades que surgem dentro daquelas condições”, explica Lourenço.
A oficina “Sem os Pés no Chão” foi uma das novidades do Festival de Dança do Triângulo que, em sua 30ª edição, buscou celebrar as multilinguagens artísticas mesclando dança com Teatro, Artes Visuais, Música, Circo e Cinema. A programação segue até o dia 29 de julho com mais oficinas, palestras e apresentações no Teatro Municipal de Uberlândia.