Com foco na conservação do Cerrado, atividade buscou promover o diálogo entre ecologia, filosofia ecológica, agroecologia e arte

Por: Beatriz Ortiz

“Conectar saberes e práticas para repensar modos de habitar o mundo”. Este foi um dos objetivos que moveram a mesa-redonda “Vozes Entrelaçadas: Tecendo Relações no Fio da Responsabilidade”, na terça-feira (29), no Teatro Municipal de Uberlândia. O debate aconteceu como parte da programação do 31º Festival de Dança do Triângulo (FDT), organizado e realizado pela Associação de Profissionais de Dança de Uberlândia (APDU).
A mesa-redonda contou com a participação da ecóloga Danúbia Magalhães Soares, da artista plástica e professora de dança Mary Borges e do engenheiro agrônomo e artista visual Lucas Dilan. A mediação da atividade foi realizada pelo filósofo e dançarino Cláudio Henrique Strondum.
A atividade teve o objetivo de promover o diálogo entre ecologia, filosofia ecológica, agroecologia e arte, conectando saberes e práticas para repensar modos de habitar o mundo. As falas destacaram a corresponsabilidade na construção de futuros sustentáveis e éticos, com foco na conservação do Cerrado.



“Nós queremos levantar questionamentos dentro do Festival”

Na primeira fala da mesa, a arte-terapeuta, artista plástica e professora de artes e de dança Mary Borges apresentou o vídeo que compõe a exposição “Bailado da Urgência”, com curadoria dela e de Strondum.
Criadas com inteligência artificial, as imagens da exposição exploram o movimento — não apenas de corpos dos bailarinos, mas de folhas, flores, águas e pássaros —, abrindo o diálogo para temas como tecnologia, criação intelectual e preservação ambiental.
“O vídeo traz, para dentro do Festival de Dança, questionamentos como: vamos conseguir sobreviver sem a natureza, enquanto seguimos destruindo tudo? E como vamos viver com a Inteligência Artificial (IA)? O que vai acontecer de agora em diante? A exposição também retoma uma discussão antiga, iniciada pelo René Magritte em 1929, sobre o que é real e o que é simulado”, explica Borges.
Em seguida à fala de Borges, o público presente teceu algumas contribuições. “Um ponto que ainda não é muito visível para as pessoas é a questão do consumo energético demandado pela IA generativa. Como o artista será capaz de responder, do ponto de vista energético, a essas outras demandas tecnológicas que, por si só, exigem retirar os recursos do planeta?”, questionou o professor e pesquisador do curso de Dança da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Vanilton Lakka.
O educador Raul Alvim Capistrano também trouxe uma reflexão crítica sobre os impactos da IA no processo criativo. “A IA, quando substitui o trabalho intelectual, tira dele o raciocínio próprio, que não é só da mente, mas também do corpo. Com isso, ela domina o trabalho, no sentido da nossa interação com o mundo, e gera uma espécie de poluição mental, que surge quando perdemos as referências e razões que nos permitem criar uma sintonia com a vida”, refletiu.


“Nós vivemos um momento único na história do planeta”

A ecóloga Danúbia Magalhães Soares destacou que nós vivemos um momento único na história conhecida do planeta, marcado pela emergência climática. Segundo ela, o termo “emergência” tem sido adotado globalmente para dar conta da gravidade da crise da biodiversidade, da crise climática e da poluição e dos eventos extremos, que se intensificam de forma constante.
“E é por isso que eu considero tão importante o Festival de Dança do Triângulo abraçar essa causa e destacar a relevância do Cerrado. É fundamental que nós, enquanto pessoas diretamente afetadas por esse momento de emergência climática, pensemos sobre isso e promovamos o debate. Porque, sinceramente, a revolução não virá de cima: ela vai ter que nascer da base”, pontua.
Danúbia Magalhães Soares é Graduada em Ciências Biológicas pela UFU e em Engenharia Ambiental pela Universidade de Uberaba (Uniube); especialista em Gestão Ambiental pela Faculdade Católica de Uberlândia; Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais pela UFU; e Doutora em Ecologia, Conservação e Biodiversidade, também, pela UFU.
“A verdadeira abundância não está na quantidade, mas na diversidade”

O engenheiro agrônomo e artista visual Lucas Dilan fez uma crítica à palavra “abundância”. Para ele, a verdadeira abundância não está na quantidade, mas na diversidade. Ele relembrou que o Cerrado, com suas múltiplas formações como mata de galeria e campos cerrados, é um exemplo de riqueza ecológica baseada na diversidade.
Dilan também criticou a lógica da monocultura por reduzir a complexidade dos ecossistemas e da vida. Citando a filósofa e física indiana Vandana Shiva, alertou para os riscos de uma “monocultura da mente”, em que a busca por homogeneização empobrece tanto o ambiente quanto nossas relações e formas de existir.
“Na monocultura da mente, a gente vai criando padrões mentais que limitam a vida e as possibilidades de existência. Dentro do sistema capitalista, e agora com toda essa interferência da inteligência artificial, esses padrões só se intensificam. É como se fosse uma via única, uma higienização dos modos de se relacionar, de afetar e até da própria ecologia”, ressaltou.
Lucas Dilan é graduado em Artes Visuais pela UFU e em Engenharia Agronômica pelo Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM); Mestrando em Qualidade Ambiental na UFU e integrante do Coletivo Mutirão na Agrofloresta (COMUNA).
Ecos da Responsabilidade no Cerrado

A mesa-redonda “Vozes Entrelaçadas: Tecendo Relações no Fio da Responsabilidade” dialogou com o tema do 31º Festival de Dança do Triângulo: “Ecos da Responsabilidade no Cerrado”. Ela cumpriu os objetivos de criar diálogos entre artistas, público e saberes diversos e de abordar a dança como prática ecológica e social.
“O Festival, ao mesmo tempo que volta para as questões locais, também trata da questão global. Por isso, a ideia da responsabilidade é fundamental. Se você corta a palavra ‘responsabilidade’, tem ali ‘responder com habilidade’, e o Festival cumpre muito bem essa função. A gente está no campo da narrativa e, com isso, conseguimos movimentar todo o sistema da cidade”, finaliza Strondum.
Essa atividade, assim como as outras do FDT, foi financiada com recursos do Termo de Fomento nº 33/2025, celebrado com a Secretaria Municipal de Cultura do Município de Uberlândia, e do Termo de Fomento nº 54/2025, com Emendas Individuais nº 49, 558 e 507 publicadas na D.O.M nº 7089 de 22/04/2025, de autoria dos vereadores Cláudia Guerra, Dr. Igino e Fabão.
