“Parto”, obra assinada por Mariane Araújo, artista e pesquisadora de dança de Uberlândia, abre a Mostra Profissional Local

Por: Izadora Faria

O corpo em estado de vibração convocando imaginários do ser mulher e suas ancestralidades foi destaque, na quarta-feira (30), durante a apresentação do trabalho “Parto”, criação autoral de dança assinado pela artista de dança Mariane Araújo. A cena, com duração de 15 minutos, provocou o público com movimentos que rompem estruturas tradicionais e mergulham no íntimo da criação – da dança e do ser mulher. “Parto” integrou o programa do 31º Festival de Dança do Triângulo (FDT), organizado e realizado pela Associação dos Profissionais de Dança de Uberlândia (APDU).
Criada em 2018, a obra diferencia-se de formas coreográficas fechadas e aposta em uma composição improvisada, em que estruturas e “scores” de movimento são explorados de maneira única a cada apresentação — fazendo com que cada encontro com o público seja também uma obra inédita. É um trabalho que nasce em cena e renasce a cada apresentação. “A partir das improvisações, foram surgindo imagens e personagens — da mulher, da morte, das anciãs, do nascimento. Dessas imagens, alguns movimentos permaneceram como padrões. Essa é uma obra que retrata muito sobre minha história como dançarina”, explica Mariane.
A escolha por “Parto” para representar a Mostra Profissional Local sinaliza a intenção do Festival de abrir espaço para pesquisas autorais e menos convencionais, aproximando o público de propostas que ampliam o entendimento sobre o que pode ser dança. No palco, Mariane move-se entre força e delicadeza, ora explorando a gravidade e o peso do corpo, ora deixando-se levar por movimentos mais fluidos e expansivos. A cada instante, há a sensação de que algo está prestes a nascer — uma imagem, uma emoção, um gesto —, e essa constante tensão entre o que emerge e o que se dissolve mantém o espectador em estado de atenção e curiosidade.
Segundo a artista, “Parto” nasce de uma pesquisa sobre estados de vibração e improvisação na dança, com foco em experiências e imagens associadas ao feminino. O corpo em movimento, segundo Mariane, busca acessar camadas profundas do ser mulher: “O impulso que o corpo gera traz questões sobre ser mulher, sobre ter útero e como ser mais profunda no próprio corpo. Esse trabalho é construído através de movimentos de um estado de constante transformação”.


Mostra Profissional Local
À medida que o Festival se expande, novas categorias de apresentação são inseridas e outras já tradicionais ganham força e refinamento. É o caso da Mostra Profissional Local, criada para valorizar artistas e companhias da cidade e colocá-los em diálogo com o público e a cena profissional. Já presente na programação do ano passado, a Mostra retornou em 2025 com um novo formato: contou com a curadoria de Henrique Rochelle, crítico de dança e doutor e mestre em Artes da Cena pela Unicamp, que trouxe um olhar externo e especializado para a seleção dos trabalhos.
“Parto”, de Mariane Araújo, foi selecionado entre 12 trabalhos inscritos e inaugurou uma programação que busca fortalecer a produção artística da cidade e ampliar a visibilidade dos criadores locais. “Convidamos um profissional de São Paulo para realizar a curadoria desta mostra, algo que no ano passado não havia acontecido. A ideia é aprimorá-la a cada edição e abrir cada vez mais espaço para que os profissionais locais possam apresentar seus trabalhos”, afirma Vanilton Lakka, presidente da APDU.
Mais do que um espetáculo, “Parto” apresenta-se como uma experiência sensorial que convida o público a perceber a dança para além da forma e da técnica, abrindo caminho para interpretações múltiplas. Por não ser fechada em uma narrativa linear, a cena permite que cada espectador construa seu próprio percurso de significados. Assim, o trabalho reafirma a importância de espaços como a Mostra Profissional Local, que não apenas valorizam a produção artística da cidade mas também estimulam a troca de experiências, a experimentação e a diversidade estética no Festival.

