Como o Festival de Dança do Triângulo se concebe a partir da arte e da sociedade

Por: Beatriz Ortiz

Evento que movimenta o cenário cultural de Uberlândia desde 1986, o Festival de Dança do Triângulo (FDT) construiu presença no Triângulo Mineiro ao longo das últimas quatro décadas. Como um refrão que perdura na memória coletiva, seu nome retorna ano após ano, reacendendo a alegria dos que amam e trabalham com a dança. O ritmo do evento atravessa gerações, ora em compasso mais acelerado, ora mais lento, mas sempre marcando o tempo da dança na região.
Encaminhando-se, hoje, para a 32ª edição, muito do que deu forma ao Festival na década de 1980 permanece vivo em sua identidade: a oportunidade de apresentar trabalhos de dança que talvez não encontrassem outros espaços com o mesmo peso simbólico; as mostras competitivas, que impulsionam artistas a subirem ao palco com coragem e intensidade; e o brilho atento no olhar do público, que sustenta cada passo, acendendo-se junto com os dançarinos.



Mas todo movimento pressupõe deslocamento. Entre um passo e outro, há ajuste de postura e mudança de direção. E foi nesse intervalo, entre a tradição consolidada e a necessidade de reinvenção, que o FDT encontrou novas possibilidades de (re)existência. A gestão do evento, que esteve sob responsabilidade do poder público até 2022 e passou à Associação dos Profissionais de Dança de Uberlândia (APDU) a partir do ano seguinte, marcou esse ponto de inflexão.
Passados três anos desde a posse da APDU, o vice-presidente da associação, Vanilton Lakka, conta mais sobre esse momento. “Quando assumimos, não desconsideramos o histórico do Festival. Mantivemos o que achamos interessante ao longo desses anos, mas também concebemos novas ideias e incrementamos o que consideramos necessário. Não houve ruptura no modelo, mas também não houve aceitação passiva. Somos uma espécie de continuidade do Festival e, ao mesmo tempo, uma crítica ao próprio modelo”, conta.



O que mudou? Outras possibilidades de (e para) um Festival de Dança
Uma das principais mudanças implementadas na nova fase do FDT foi a ampliação de formatos de apresentação para além da mostra competitiva. Atualmente, o Festival conta com cinco modelos: espetáculos e mostras; mostras competitivas e não-competitivas; seminários pedagógicos, que incluem oficinas, mesas-redondas e palestras; palcos livres; e exposições e cultura digital.
Embora a competição continue sendo parte importante do evento, tanto pela trajetória histórica quanto pela capacidade de mobilizar os artistas e o público, a direção da APDU defende que ela não pode mais ser compreendida como a definição central do Festival. O evento, segundo os coordenadores, precisa ir além da disputa e se afirmar como espaço de arte, reflexão e diálogo com a sociedade.



“O modelo competitivo, muito presente no Brasil, carrega um entendimento de dança que deriva da forma como o esporte se organiza, com divisão por modalidades, tempo cronometrado, pontuação e premiação”, explica Vanilton Lakka. “Há, por outro lado, outros modelos de festivais, mais próximos de outras manifestações artísticas — como o teatro, as artes visuais — do que da lógica esportiva, interessado em proposições artísticas mais amplas, com trabalhos mais longos no palco ou criações que ocupam a rua e outros espaços da cidade”.
Com tantas possibilidades de modelo, não é preciso optar por um caminho único. É possível articular diferentes entendimentos sobre o papel da dança no mesmo evento. “Nós entendemos que os modelos não precisam estar distantes: podem coexistir. Para uma cidade do tamanho de Uberlândia, com a cultura e o pensamento que ela tem, não funcionaria fazer um evento que pensa arte de forma muito fechada e que não dialoga com a população”, conclui Lakka.
Que sociedade faz e participa do Festival de Dança?
Os coordenadores afirmam que, na organização de festivais, de forma geral, duas lógicas costumam entrar em tensão: a do consumo e a da inclusão. Para eles, um evento artístico não pode se orientar apenas pelo mercado ou pela capacidade de gerar retorno financeiro. O princípio que deve guiar o Festival de Dança do Triângulo é o da inclusão, ampliando o acesso para além do centro da cidade e dos espaços formais da dança, como teatros.
Por isso, a proposta da atual gestão é construir um festival que dialogue com públicos diversos. O Festival tem ampliado suas ações para além dos palcos do teatro, ocupando ruas, parques, hospitais, cozinhas comunitárias, assentamentos de trabalhadores rurais sem terra e outros espaços que escapam à concepção tradicional de “lugar de dança”. Busca, assim, alcançar públicos que não costumam frequentar espetáculos formais e aproximar a dança de diferentes territórios da cidade e do campo.



Por trás dessas ações, está a busca pela democratização da arte. “A cidade não é composta somente pelos corpos que estão presentes no teatro. Existem os invisíveis também. Tem gente que nunca vai ao teatro, mas vai ao parque, ao palco livre… E o Festival também é para essas pessoas. Então, levar a dança a diferentes territórios é uma ação em prol de reconhecer presenças e ampliar acessos”, afirma o coreógrafo, diretor, roteirista audiovisual e membro da diretoria da APDU, Cláudio Strondum.
Essa realidade só é possível quando a relação com a sociedade deixa de ser periférica e passa a orientar a programação, as temáticas e os formatos do festival, em uma tentativa de fazer da dança não apenas espetáculo, mas convivência. É preciso escutar a cidade, diz Strondum. “Hoje, a concepção do festival raramente pensa algo que não esteja conectado às demandas locais. Não faz sentido propor um conceito artístico deslocado do social. Não funciona discutir arte sem dialogar com a população”, conclui Strondum.
Um festival que escuta seu tempo
Com a oferta de atividades como mesas-redondas, palestras e oficinas dentro de um evento de dança, o FDT abre espaço para discutir sobre as questões que permeiam o dia a dia dos habitantes da cidade. Assim, confirmam os coordenadores, a dança deixa de ser pensada de forma isolada e passa a ser reconhecida como uma prática atravessada por questões políticas, culturais e territoriais.
“Hoje, quando falamos da concepção e do conceito do FDT, tudo passa por uma ideia de arte engajada. A concepção do festival é dada pelas relações entre artista, sociedade e meio político. A gente parte das experiências e dos desafios do dia a dia para construir esse conceito, de forma que o Festival seja como uma resposta às urgências do nosso tempo. Assim, o que é pensado no Festival não está deslocado da realidade social nem da arte, mas nasce dessas próprias relações”, sintetiza Strondum.



Essa perspectiva também orienta a escolha das temáticas de cada edição desde a assunção da APDU, funcionando como ferramentas para refletir sobre o tempo presente e sobre o lugar da dança no mundo contemporâneo. Em 2023, por exemplo, o tema “Atualização e Permanência” convidou a pensar o que deve ser preservado e o que precisa mudar na tradição da dança. Já em 2025, “Ecos do Cerrado e a Responsabilidade Social” trouxe de forma mais explícita as discussões sobre ecologia, território e compromisso coletivo, conectando dança, meio ambiente e sociedade.
A incorporação das dimensões da ecologia presente na temática e que orientou grande parte das atividades do ano passado e do digital, presente na categoria de cultura digital, é entendida pela APDU não como tendência, mas como parte constitutiva do presente. “Pensar a dança em diálogo com questões ambientais e com as culturas digitais significa reconhecer que o mundo mudou e que o festival precisa acompanhar esse novo ritmo, ajustando sua postura às urgências do tempo”, afirma a presidente da APDU e dançarina Mary Borges.



O festival como coreografia coletiva
Hoje, no horizonte para o FDT traçado pelos coordenadores, a concepção do Festival de Dança do Triângulo não se fixa nem na nostalgia de um passado consolidado nem na promessa abstrata de um futuro idealizado. “O Festival não é uma esperança que está na frente nem uma retomada do passado. Ele está acontecendo nessa conexão com a cidade, por meio de redes e interações”, indica Strondum. O que se desenha é uma mudança de contexto, que é natural do tempo, e com ela a sede de compreendê-lo e vivenciá-lo.
Mais do que preservar um formato, a proposta é construir um espaço vivo, capaz de se reorganizar conforme as transformações sociais, tecnológicas e culturais. Se a dança é movimento, o festival também precisa ser. E sua concepção atual parece menos interessada em definir um modelo fixo do que em sustentar as condições para que diferentes experiências, linguagens e encontros possam emergir.
Como numa coreografia coletiva, o Festival segue em movimento: preserva a base, mas experimenta outras maneiras de se manifestar artisticamente, de ocupar os espaços e de se relacionar com a cidade.
