Atividade buscou articular práticas de agroecologia, cultura e arte em um ambiente rural de cuidado, troca, reflexão e prática

Por: Beatriz Ortiz

Dezenas de pessoas colaboraram para o plantio de mais de 500 mudas no Sítio Videiras, no assentamento Carinhosa, na zona rural de Uberlândia, no sábado (19). A ação, fruto de uma parceria entre os proprietários do Sítio, o Coletivo Mutirão na Agrofloresta (COMUNA) e a Associação dos Profissionais de Dança de Uberlândia (APDU), fez parte do Ecosítio, atividade que integra a programação do 31º Festival de Dança do Triângulo (FDT), organizado e realizado pela Associação dos Profissionais de Dança de Uberlândia (APDU).
O plantio, o qual incluiu tanto espécies nativas do Cerrado, como gabiroba, jatobá e pitanga, quanto exóticas, como açaí, jambolão e banana, teve o objetivo de construir um quebra-vento. Os quebra-ventos, ou barra-ventos, são barreiras, compostas por vegetação, plantadas para reduzir a velocidade do vento e assim manter a umidade do solo. Quando o mecanismo estiver pronto, os agricultores da região plantarão parreiras no local.



“O quebra-vento é uma tecnologia para garantir água sem custo, o que vai beneficiar os agricultores da região, que sofrem com a falta de recursos”, explica o biólogo e integrante do Mutirão, Henrique Lomônaco. “O vento tira muito da umidade do solo, então, quando nós barramos o vento, retemos a água. Construir o quebra-vento antes de plantar as parreiras é uma garantia de que as uvas terão mais água nas suas raízes, portanto, mais chance de prosperar”.
O artista, agrônomo e também integrante do Mutirão, Lucas Dilan, explica que o quebra-vento também atua como barreira sanitária, repelindo a presença de organismos indesejados. “E ele também atrai insetos e pássaros, que se alimentam das árvores frutíferas, além de fornecer a biomassa que, mais tarde, será aproveitada no solo em que as parreiras serão plantadas”, complementa o biotecnologista e integrante do coletivo Lucas Martins.
O plantio das mudas, primeira atividade do Ecosítio, contou com a participação de cerca de 80 pessoas de diferentes idades, gêneros, etnias e ocupações, movidas pelo desejo de aprender técnicas de agroecologia, vivenciar novas experiências e reforçar o compromisso social com a arte e o meio ambiente. Antes e depois da atividade, os proprietários do Sítio Videiras prepararam e serviram o café da manhã e o almoço gratuitamente aos participantes.



“A atividade foi muito interessante, porque a gente aprendeu algumas técnicas às quais eu nunca tinha tido acesso, sobre como plantar, como preparar o solo, como adubar. Eu gosto de ter esse contato com a terra. E é bom a gente ter contato com outras pessoas, com outras vivências também”, comenta o estudante de Química Industrial da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Gabriel Rocha Sousa.
“Eu gostei muito do plantio porque eu estava precisando dessa reconexão com a terra. Estava afastada disso. E a atividade trouxe uma grande troca de ideias com outras pessoas, uma troca de vivências mesmo, experiências novas. Isso foi muito importante para mim”, complementa a técnica em Meio Ambiente e estudante de Artes Visuais da UFU, Anna Luiza Peixoto.
Agroecologia e arte
O plantio das mudas foi realizado a partir da perspectiva da agroecologia, uma abordagem para a agricultura que integra princípios ecológicos, sociais e econômicos, com o objetivo de criar sistemas de produção de alimentos sustentáveis e socialmente justos. Em vez de focar na produção em larga escala e no uso intensivo de insumos químicos, a agroecologia busca otimizar a interação entre os componentes do ecossistema agrícola, valorizando a biodiversidade, a saúde do solo, a conservação da água e o bem-estar das comunidades.
Como parte da programação do FDT, o Ecosítio também buscou articular práticas de agroecologia, cultura e arte em um ambiente rural de cuidado, troca, reflexão e prática. Assim, artistas e apreciadores das artes puderam vivenciar experiências de diálogo e criação coletiva na terra, tendo a natureza como aliada. O Festival procurou promover um reencontro entre corpo, território e imaginário, promovendo uma imersão estética e ecológica na qual a dança e a agroecologia entrelaçam-se como forma de resistência, cultivo e futuro.
“A agroecologia faz a fusão de diversos conhecimentos. Ela pensa em cultura, justiça social, soberania alimentar, arte, muita coisa. Ela é transdisciplinar. E é um princípio de arte, um princípio de invenção, de reelaboração, de ressignificação dos espaços. Na agroecologia, a gente encontra outras formas de se organizar, de se ordenar, de se entender, de fazer a coisa acontecer no campo do efetivo, da ação, e das relações afetivas”, destaca o artista e agrônomo Lucas Dilan.



Transformação social
“A minha casa estava aqui no meio do nada, toda tampada de mato, porque tinha sido abandonada há muitos anos. Só as vacas andavam por aqui. Hoje em dia, você vê a floresta vindo para cima da minha casa. Isso é muito importante para mim”, conta o Sr. José Rubens, filiado ao Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST) e proprietário do Sítio Videiras, onde ocorreu o plantio. Foi ele que, junto com a família, transformou a área de pasto da antiga fazenda em uma área produtiva.
Junto com a Sra. Duda, o Sr. José Rubens lidera uma família de agricultores comprometidos com a sustentabilidade e a partilha de saberes. A família é certificada como Agroecológica pelo Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e assistida pelo Centro de Incubação de Empreendimentos Populares Solidários (CIEPS) da UFU para “comprovação das práticas de manejo agroecológicas e da produção de quitandas ‘caipiras’”.



Assim como eles, outras dezenas de famílias em situação de vulnerabilidade social ocuparam o espaço inativo de uma fazenda antiga em março de 2009. Após longos e diversos processos jurídicos e várias tentativas de reintegração de posse, a fazenda foi adquirida pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária de Minas Gerais (INCRA/MG) em 2017, incluindo 60 famílias no programa de reforma agrária. Delas, pelo menos oito desenvolvem práticas agroecológicas.
O Sr. José Rubens celebra a história de luta e resistência da sua comunidade. “E eu comemoro ainda mais, porque hoje nós estamos batizando um monte de agroflorestais. Cada um que plantou hoje já é agroflorestal. Já contribuiu para um pedacinho da floresta. Eu sinto orgulho e eu acho que todos devem sentir o mesmo orgulho, por ter plantado uma árvore, por ter contribuído com o meio ambiente e com as famílias”, agradece.
Para o morador, também é uma alegria conectar a prática agroecológica ao FDT. “Dançar é arte, é cultura. E lidar com a terra também é arte, é uma atividade cultural, ancestral. Então, tudo se liga e se conecta, principalmente pelo prazer. Porque quem lida com a terra só por causa do dinheiro, quem explora e mata a terra, não é feliz. Mas o que a gente produz aqui é mais saudável. Embora seja mais artesanal, conta com a simplicidade de buscar construir um mundo mais feliz, com dança, alegria, divertimento, cultura, lazer e tudo a que nós temos direito”, conclui ele.

O Ecosítio promoveu outras atividades no último sábado (19), como apresentações culturais da Viola das Gerais e Helena Viola; mesa de discussão sobre cultura, ecologia e agroecologia e roda de reflexão sobre projetos futuros, com artistas participantes da atividade e convidados. Para saber mais, acesse o boletim informativo do 31º Festival de Dança do Triângulo.
Confira os vídeos: