Iniciativas culturais de Uberlândia apresentam coreografias de impacto sobre identidade, memória e resistência

Por: Thuanne Santos

O caminho até o palco nem sempre é trilhado em linha reta — para muitos, ele começa em salas improvisadas, com poucos recursos e muitas curvas. E a linha que prova que a arte é, sim, uma ferramenta de inclusão movimentou o Teatro Municipal de Uberlândia, na segunda-feira (28), com a apresentação dos projetos sociais de dança Sementes do Amanhã, Studio Dançarte, Comunidade Ativa, Junina Balancê e Capoeiristas do Rei, no 31º Festival de Dança do Triângulo (FDT), organizado e realizado pela Associação dos Profissionais da Dança de Uberlândia (APDU).
Os projetos sociais trouxeram ao palco, respectivamente, os números “Pra matar o preconceito”, “Filhos pra sempre off LINE” e “Divertidamente”, “O luxo das ruas”, “La quadrilhe: a história que a dança criou e o amor que São João eternizou” e “Ecos da Liberdade”. Juntos, os projetos somam mais de 200 participantes e atuam em regiões de vulnerabilidade social da cidade de Uberlândia, fazendo da arte um elemento de mudança social.



Sementes do Amanhã
O grupo Sementes do Amanhã iniciou suas atividades em 2017, sob a coordenação da gestora cultural e historiadora Raquel Tibery, que também atua como coordenadora geral da iniciativa. De oficinas de dança realizadas apenas uma vez por semana ao formato atual, com aulas diárias, foram seis anos até ser aprovado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), o que ampliou a atuação do projeto, que hoje oferece gratuitamente oficinas de danças urbanas, musicalização, teatro e capoeira com práticas afrocentradas, colocando a cultura e a história africanas no centro da análise e da ação.
A apresentação escolhida para essa ocasião especial não poderia ser outra. O número “Pra matar o preconceito” está alinhado com o propósito do projeto: incentivar a valorização das identidades negras e periféricas de crianças, adolescentes, jovens e famílias envolvidas na iniciativa.


“Foi a primeira vez que reunimos no palco, simultaneamente, as linguagens da música e da dança, apresentadas por nossas crianças, jovens e professores. Escolhemos um número que conta a história de mulheres negras que enfrentam o preconceito diariamente e lutam por sua emancipação e liberdade em uma sociedade estruturalmente racista como a brasileira”, conta Raquel.
O Projeto Sementes do Amanhã atende crianças e adolescentes de sete a 17 anos, com acompanhamento psicossocial, e inclui participantes com diversidade cognitiva e neurodivergência. Também oferece alimentação durante as oficinas, realizadas nos turnos da manhã e da tarde, no bairro Lagoinha.





Junina Balancê
“O Balancê é parte da minha história e da minha caminhada como artista e educadora”, afirma a coordenadora geral e professora do grupo Junina Balancê, Kerollen Amorim. O projeto, que atua no setor leste de Uberlândia, nasceu de uma demanda: ex-alunos da quadrilha infantil “Pequeninos do Sertão” — também coordenada por Kerollen — pediram para continuar mesmo após ultrapassarem a faixa etária permitida. Assim surgiu o grupo profissional de quadrilha Junina Balancê, que hoje acolhe adolescentes, jovens e adultos.
Além de ser o número apresentado no palco do Festival, “Lá Quadrille (A Quadrilha): a história que o tempo criou, o amor que São João eternizou” é também o tema central da temporada 2025 do grupo.



“A proposta foi resgatar a memória da quadrilha como patrimônio imaterial do nosso povo, mostrando como ela resistiu ao tempo, atravessou gerações e se reinventou sem perder sua essência: o amor. Contamos a trajetória da quadrilha desde suas origens nas danças de salão europeias trazidas ao Brasil durante o período colonial, passando pela adaptação nos interiores, até se transformar na manifestação cultural vibrante, colorida e afetiva que conhecemos hoje”, conclui Kerollen.
Com mais de quatro anos de atuação, a iniciativa oferece aulas gratuitas de dança, teatro e capoeira em espaço próprio, o Ponto de Cultura Balancê. O projeto busca fortalecer os vínculos com as raízes brasileiras e resgatar a autoestima dos participantes por meio da valorização da cultura junina.





Studio Dançarte
Criado em 2022, o Studio Dançarte é um projeto ligado à associação Crê-Ser, que atua no bairro Morada Nova, na zona oeste de Uberlândia. Coordenado por Daniela Gusmão Silva — fundadora, professora e coreógrafa — a iniciativa atende, de forma gratuita, alunos de três a 14 anos. O grupo apresentou no palco do Teatro Municipal duas coreografias: “Filhos pra sempre off LINE” e “Divertidamente”.
“‘Filhos pra sempre off LINE’ é um alerta aos pais sobre os riscos de passarem muito tempo nas redes sociais e não se dedicarem aos filhos. Na maioria das vezes, a preocupação é com os filhos nas redes sociais, mas muitos pais também são escravos das telas. Já em ‘Divertidamente’, mostramos que estamos em constante mudança e construção das nossas emoções e que cada fase é essencial na vida”, explica a professora.
O foco do projeto é a descentralização da cultura — ou seja, democratizar o acesso, a promoção e a produção cultural, além de promover o protagonismo de crianças em situação de risco ou vulnerabilidade social. “Acredito que o palco do Festival de Dança do Triângulo é uma rica oportunidade para projetos sociais como o nosso mostrarem seus trabalhos. Ver nossas crianças brilharem no palco é a realização de um sonho!”, conclui Daniela.












Capoeiristas do Rei – CDR
Também vinculado à associação Crê-Ser, o projeto Capoeiristas do Rei (CDR), que está em atividade desde 2019, é coordenado por mestre Célio Sandro Silva e recebe alunos dos quatro anos até a fase adulta.
“Este ano, levamos uma coreografia com o tema ‘Resistência’, com a ideia de mostrar a luta de um povo que buscou — e ainda busca — a liberdade”, relata Célio.
O projeto utiliza a cultura afro-brasileira como ferramenta de socialização e de construção de oportunidades para crianças, adolescentes, jovens e adultos de uma comunidade historicamente marginalizada. A associação Crê-Ser é dirigida por Daniela Gusmão Silva e Célio Silva e já desenvolveu projetos e oficinas de bordado em pedraria, futebol, percussão e maculelê.





Comunidade Ativa
Criado em 2023 pelo professor e coreógrafo Marcos Paulo Bertoldo, o projeto Comunidade Ativa é fruto de sua vivência e experiência de 30 anos como bailarino da Companhia de Dança Balé de Rua. O que começou com ensaios ao ar livre, hoje conta com oficinas semanais aos sábados na Escola Municipal Dr. Gladsen Guerra de Rezende, no bairro Canaã, zona oeste de Uberlândia.
“Para o Festival de Dança do Triângulo, quis trazer a arte que existe nas ruas, o luxo que a rua oferece. Inclusive, nosso figurino foi feito com saco de lixo preto e saquinhos de salgadinho tipo Skinny. Os próprios alunos construíram os figurinos com o meu auxílio — usando spray, pintando caixas de papelão — e assim esse lixo virou o luxo das ruas”, explica Marcos.
Essa não foi a primeira participação do grupo no FDT. Na 30ª edição, em 2024, a coreografia “Luxo das ruas” conquistou o primeiro lugar na categoria “coreografia destaque”. O projeto foca no fortalecimento de vínculos, no respeito mútuo e na solidariedade, além disso Marcos apresenta aos alunos o estilo que marcou a sua vida, a dança de rua com sotaque brasileiro.
O 31º Festival de Dança do Triângulo acontece até dia 3 de agosto com diversas apresentações e atividades por Uberlândia e região. Para mais informações sobre a programação acesse as páginas oficiais do evento.




