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O festival já começou!

O despertar do corpo e o direito de existir na dança 

A acessibilidade como ferramenta de transformação social para artistas com deficiência 


Por: Vitória Pereira

A dança, para além do corpo que se movimenta, é uma das artes de expressão mais profundas da história humana. Em ritmos compassados ou não, um movimento planejado, estudado e ensaiado traduz muito mais do que aquilo que se vê, pois carrega consigo histórias, narrativas e propósitos que também entram em cena. É assim que podemos compreender a vivência de mais de 10 anos nos palcos do dançarino e ator Dyego Jackson, de 23 anos, inclusive, de apresentação no Festival de Dança do Triângulo (FDT). O FDT entra em 2026 em sua 32ª edição e , desde 2023, é organizado e realizado pela Associação dos Profissionais de Dança de Uberlândia (APDU).

Dyego Jackson nasceu com paralisia cerebral, mas descobriu, ainda muito novo, que poderia dançar. Apaixonado pela dança, pôde se reinventar como ser humano e encontrar na arte uma ferramenta de transformação social. E, mais do que isso, seu mergulho na dança traduz a importância do dançar para a garantia do direito de pessoas com deficiência existirem plenamente. “Eu achava que, com minhas limitações, não poderia dançar, mas descobri que posso. A dança é muito mais ampla; a capacidade física não me limita, porque eu amo a arte e ela mudou minha vida.”, afirma Dyego. O artista defende a importância de ampliar a acessibilidade para além das adaptações físicas. Pessoas com deficiência devem ser reconhecidas como artistas, como profissionais da dança, e incentivadas a ocupar esse espaço.

A dança acessível propõe que todos os corpos sejam passíveis de reconhecimento, possibilitando constantes descobertas. Quando espaços são abertos para essa diversidade, a dança deixa de ser apenas performance em espetáculos e passa a ser um projeto de reconhecimento, pertencimento e dignidade tanto para o dançarino quanto para todos que se sentem representados, além de promover, sobretudo, a reflexão do público. 

Cláudia Nunes

Essa é a proposta que a bailarina, professora e psicóloga Cláudia Nunes se propõe a desenvolver há mais de 30 anos. Ela introduziu a dança acessível na cidade de Uberlândia e explica: “Eu não quero apenas ensinar a dançar e colocar esses alunos nos palcos. Aqui não deve ser só uma passagem. Eles devem e serão reconhecidos como profissionais da dança. Quero que alcancem esse reconhecimento e, inclusive, tenham sua independência, principalmente financeira”.

A dança, como direito cultural, constrói pontes em todo o meio social, mas também no âmbito interpessoal. Esse direito, quando garantido e acessado por todos os corpos, permite ampliar o conhecimento sobre si. O dançarino Dyego Jackson explica  como a arte mudou e impactou a forma como ele se vê e se relaciona com outras pessoas: “Eu era muito tímido, não conseguia falar em público, não conseguia me relacionar com o mundo externo, e agora consigo fazer isso, pois a dança me tirou da caixinha”, complementa.

No Brasil, ainda está em construção o imaginário sobre a acessibilidade na dança, inclusive no meio profissional e formativo. Nesse contexto, trabalhos como o de Claudia possibilitam que sonhos sejam realizados e vidas, transformadas. “Eu nem imaginava que chegaria a esse caminho; foi uma construção e, quando percebi, já estava trabalhando com todo tipo de acessibilidade. Foi natural, mas é preciso introduzir isso, e iniciativas como o Festival de Dança do Triângulo permitem que essas pessoas sejam vistas e valorizadas”, explica Cláudia. 

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